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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Brasil de lá e o Brasil de cá

por Joaquim Onésimo Barbosa (*)
Sempre, depois de um pleito eleitoral, emergem as inúmeras falas distorcidas, que revelam a banalidade, a ingenuidade e, mais grave, o preconceito de alguns dos do Sul-Sudeste contra os do Nordeste-Norte.
Em 2010, após a eleição de Dilma, choveram palavrões, incitação à violência, contra os do Nordeste. Eles eram a culpa pelos males que assolam a humanidade. Elegeram Dilma.
Em 2012, após a eleição de Haddad, prefeito de São Paulo capital, outros milhares de comentários depreciativos.
A culpa por tudo o que de pior que existe no Brasil é dos nordestinos.
Dilma Rousseff durante o Encontro: Pelo Semiárido. Petrolina - PE, 21/10/2014. Foto: Ichiro Guerra
A corrupção, entranhada no seio da humanidade desde Adão e Eva, é a culpa mordaz dos nordestinos e, para não deixar escapar, dos petistas.
A miséria que mata milhares mundo por aí, que matou milhares dos próprios nordestinos, também é culpa deles próprios.
O preconceito contra os nordestinos revela o que de pior escondemos nas nossas vísceras.
Quanto mais avançamos em civilidade. Quanto mais nos modernizamos em termos tecnológicos. Quanto mais saímos do fosso da miséria e avançamos para a outra margem da história, tanto mais parece que involuimos no respeito, na civilidade ética e na igualdade de direitos. Somos hipócritas nisso.
Não são apenas os menos informados que usam e abusam dos adjetivos pejorativos para tisnar aqueles que ajudaram a construir o Brasil.
Quem esteve na construção da nossa capital? Quem ajudou a mover a mola que faz girar a capital econômica do Brasil?
Quem ajudou a desbravar estradas e a levar aos cantos do Brasil na interligação econômica? Foram eles, os do Nordeste.
Falamos deles como se fossem menos importante, como aquela página em branco de um livro que ninguém sabe para que serve.
Ignoramos a importância dos do Nordeste, que revela, todos os dias, talentos.
Foi o Nordeste que nos deu nomes ilustres da nossa literatura – Ariano Suassuna é um deles. Sem esquecer Elba Ramalho, Fagner e Alceu Valença na música. E tantos outros.
Mas, ao gosto da nossa ignorância mordaz, preferimos vê-los como os descamisados, os inválidos, os preguiçosos, os sem cultura, os sem valor.
É assim que os vejo nos inúmeros comentários que leio.
Diogo Mainardi, da Rede Globo, logo após o resultado das eleições, que deu um segundo mandato à Dilma, saiu-se com um comentário tão imundo quanto o que a emissora da qual ele faz parte faz como jornalismo.
Para Mainardi, “os nordestinos sempre agiram como bovinos”, estão distantes da modernidade, porque têm dificuldade de entrar no círculo moderno, têm uma linguagem atrasada.
Não sei o que o jornalista entende por linguagem atrasada. Pior do que uma linguagem atrasada é o atraso do seu cérebro que não conseguiu acompanhar a modernização do Nordeste. Ele vive em Veneza, lugar da civilidade, mas nem lá ele parece não ter aprendido os ritos modernos de uma civilização que respeita o direito e o espaço do outro.
Enquanto o Nordeste é visto como o atrasado política e economicamente, São Paulo, representando majoritariamente o Sudeste, floresce como o avanço, a modernidade.
A explicação para o atraso do Nordeste são as bolsas que o governo teima em dar como isca para os ignorantes, os famintos e os afastados da civilização.
A explicação para os avanços do sudeste, de São Paulo principalmente, está no governo que afasta os pobres do meio social e agrega os endinheirados e alfabetizados, conscientes da sua cidadania e da sua ampla ignorância, certamente.
O Nordeste viveu, por longos anos, a seca, a miséria e o abandono. O que lhe era de direito escorria como água para os do Sudeste, e São Paulo torrava em desenvolvimento. Hoje a situação é diferente – falta água em São Paulo e o Nordeste começa a ver jorrar em abundância pelo sertão nordestino. Quanta ironia.
Quando viu o Nordeste sair do atraso e começar a despontar como o outro, não mais migrando para aplacar sua fome, negando sua mão de obra escrava aos do sudeste, passa a ser o bovino do governo petista.
Nossa ignoarrogância pura.
O Nordeste precisava viver na miséria. Os do nordeste precisavam continuar nas cenas e nos noticiários nacionais e internacionais, como os famintos, os da seca, os miseráveis. Porque não o são mais, não servem mais como trampolim dos doutos senhores, agora são sinônimo de burrice, de atraso, de acefalia.
Voltando a Mainardi. Ele sempre acha que o Brasil do Nordeste é o atraso que deveria ser expurgado.
Ao comentar sobre o livro A cabeça do brasileiro, o jornalista dizia que não há como não comparar a cabeça dos nordestinos com a cabeça dos paulistas. E não há mesmo.
Certamente, na cabeça de alguns, como a de Mainardi, jorra hipocrisia e arrogância metamorfoseada pelo preconceito doentio.
Talvez a nossa arrogância seja muito maior do que os nossos problemas sociais.
Fico imaginando se fosse Aécio que vencesse as eleições, o que diriam os do outro lado.
Certamente, os que hoje jorram preconceito contra os nordestinos, ficariam calados, e atribuiriam a vitória tucana aos do sudeste-sul, quando na verdade o Brasil inteiro votou, em maior ou menor expressão no tucano ou na petista.
Dividir o Brasil do Norte-Nordeste como os do atraso e da burrice porque votou, em grande maioria em Dilma e o Sudeste-Sul como os livres da ignorância – como disse dia desses Fernando Henrique – porque votou em maioria em Aécio, é esquecer o nosso passado e esconder a vida de duas décadas.
Em nenhum Estado do Nordeste Aécio deixou de receber voto. Isso significa que não podemos atribuir ao nordestinos a derrota tucana.
O que dizer então sobre a derrota de Aécio em Minas Gerais – seu berço e de onde saiu, dizem eles, como mais de 90% de aprovação? Os resultados não parecem confirmar o garbo do tucano.
A diferença entre os dois candidatos foi um pouco mais de três milhões. Somam-se os que não votaram e vejamos que não podemos atribuir aos que votaram em Dilma a desgraça tucana.
O certo é que nenhum dos dois candidatos tiveram o discurso suficientemente convincente para levar esses 21milhões de brasileiros que se recusaram a votar a dedilhar o 13 ou o 45.
É bom que reconheçamos isso. Se os que hoje vociferam hipocrisia tivessem a consciência de que seu candidato era o melhor para o Brasil teriam saído às ruas, batido de porta em porta, e convencido os seus a irem eleger Aécio. Mas não foram.
Agora, que o resultado é irreversível, parecem acordar para a realidade.
Sair às ruas para clamar por intervenção militar – a maioria dos que seguem como bovinos, os que defendem a ditatura militar é de jovem que não viveu o período de ferro e fogo – parece ser atestar nossa imbecilidade e nosso desprezo pela Democracia.
O respeito pelo direito de escolha é uma das características das democracias modernas e maduras.
Quem não respeita a vontade da maioria tende a ser – aí sim se pode chamar – os bovinos rebeldes, acometidos da acefalia, que tentam impingir aos que, cônscios de sua realidade de outrora, deram mais quatro anos a quem acharam melhor.
Enquanto houver dois brasis, continuaremos a ver a miséria da nossa ignorância atropelar a Democracia que parece tão frágil diante dos apelos dos que desconhecem o que foi a Ditadura.

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