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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pesquisas, eleitores e candidatos

por Joaquim Onésimo Barbosa (*)
Quem se baseia em pesquisas eleitorais para vislumbrar o ânimo dos eleitores sempre se surpreende. Pelo menos se contarmos com as peripécias dos institutos de pesquisas brasileiros.
Eleição 2014No primeiro turno das eleições deste ano eles deram um show à parte – de erros.
Na Bahia, o candidato Paulo Souto era o vitorioso até a sexta-feira. Todas as pesquisas dava-lhe vitória garantida. Deu no que deu, Ruy Costa foi eleito com mais de 50% dos votos baianos. Não deu o que as pesquisas diziam.
Em São Paulo, o ex-ministro da saúde Alexandre Padilha não passou dos 6% nas pesquisas. Tanto que, para participar do debate da Globo – a Globo é quem dita as regras na eleições brasileiras, assim como o faz com o futebol – Padilha teve que recorrer à justiça, pois, segundo as regras globais, o candidato petista não estaria no requisito para participar do debate.
Ao final da apuração dos votos, Padilha chegou aos mais de 15%.
A Globo abriu exceção para os presidenciáveis Fidélix, Pr. Everaldo, Luciana Genro e Eduardo Jorge, os quatro juntos, não chegavam os 6%. Mas, como a Globo faz o que quer e todos dizem “amém”, ela deixou que os quatro “nanicos”, como muitos dizem por aí, se fizessem presentes no debate.
No Rio de Janeiro, todas as pesquisas colocavam Antony Garotinho na disputa com Pezão. Foi assim até a última pesquisa. Fechadas as urnas, computados os votos, deu para a final Pezão e Crivela. As pesquisas levaram uma goleada.
No Amazonas, todas as pesquisas destacavam Eduardo Braga eleito com mais de 50% dos votos. O Ibope chegou a dar 60% a Braga. Não deu. Braga vai disputar o segundo turno com o atual governador José Mello. Eles chegaram tecnicamente empatados.
No Pará, Jatene estava eleito no primeiro turno. Pelo menos era o que diziam o Ibope e o Doxa. O governador paraense ouviu tanto os institutos de pesquisas, que, no debate da TV Liberal, foi arrogante e mostrou-se o dono do pedaço, com ar de eleito. Não só está no segundo turno, como ficou atrás de Hélder Barbalho, embora a diferença tenha sido mínima, mas o suficiente para dar um susto no tucano.
No plano nacional, os números entre Aécio e Dilma eram largos. Segundo todos os institutos de pesquisa, Dilma chegaria ao segundo turno com mais de 45% das intenções de voto, deixando Aécio com menos de 30%.
Quem acompanhou as apurações viu a proximidade entre os dois candidatos – 41% a 35%. Embora o número de eleitores que deixaram de votar tenha sido enorme.
As dúvidas: que universo os institutos de pesquisa levam em conta quando fazem as suas “pesquisas”? Que tipo de eleitores eles entrevistam? Todos os Estados são contemplados com as tais pesquisas? No caso das pesquisas para governadores, os municípios são contemplados em sua maioria, inclusive os eleitores do interior, ou ouvem-se apenas os das cidades de médio porte?
Pesquisas são coisas meio esquisitas. Possuem aquela tal margem de erro. Algumas 2 p.p., outras chegam a beirar os 3p.p. Recorre-se a esse artifício para não se enlamear tanto no descrédito como se tem visto ultimamente.
As pesquisas visam a um determinado universo de pessoas. E, tendo-se em vista a vontade de quem as faz, pode-se muito bem maquiá-las. O pesquisador vai à rua com um número x de pessoas para entrevistar. Ele é orientado a pesquisar aleatoriamente, sem escolher A ou B, mas X e Y, de modo aleatório.
E, como são pessoas que fazem as pesquisas, não se pode acreditar que, realmente, todo o universo pesquisado é verdadeiro. Chega uma hora em que o cansaço, a fome e as condições do dia levam o pesquisador a burlar os dados. Aí sim, ele preenche aleatoriamente o questionário, uma vez que o entrevistado não tem nome, documento ou algo que comprovem a sua existência.
Por isso, as pesquisas – essas pesquisas encomendadas – nem sempre descrevem o universo real a que se propõem.
Já as pesquisas acadêmicas, aquelas levadas a cabo com seriedade, revelam dados reais e fidedignos. Pouco falham ou pouco erram. Nessas eu confio.
O eleitor, o de carne e osso e com título, pouco é atingido pelas pesquisas que se publicam por aí.
Os pesquisadores são como a cabeça do bacalhau – sabe-se que ela existe, mas nunca se viu. Eles assim o são – sabemos que eles saem a campo para coletar dados, mas poucos são os interpelados por eles para responderem às suas perguntinhas misteriosas.
Recebi, dia desses, uma ligação na qual a pessoa do outro lado identificava-se como pesquisadora do Ibope e fez-me uma única pergunta – minha formação. Respondi-lhe. A pessoa do outro lado agradeceu-me e disse que eu não me enquadrava no perfil do universo da sua pesquisa. Tentei perguntar o porquê, mas nem tempo tive e a “moça” do outro lado desligou.
Nem nesse tipo de pesquisa se pode confiar. A gente até que tenta acreditar, mas acaba sendo descrente com eles e com elas. E, assim, as pesquisas acabam se tornando mais um indicativo pessoal – de quem manda fazer e para quem é feita – e menos sociológica, antropológica, filosófica ou política, para demonstrar um universo x sobre y situação.
O eleitor vota. E vota para surpreender. Exemplo foi visto no primeiro turno.
Ouvi a justificativa, de um desses comentaristas políticos, que o eleitor só decide seu voto diante da urna. Creio que ele se referia ao caso de presidente e governador, que são apenas dois números para dedilhar. Não é o caso de deputado estadual ou federal e senador, os números são mais longos, e dizer que ele decide na hora é atestar o voto em branco ou nulo, porque nem eu tentando arrumar os números dos meus candidatos a semana toda, consegui ir a minha seção de votação tranquilo.
O eleitor pode responder a uma pesquisa e dizer que votará no candidato X, mas logo em seguida o vento muda de rota e ele pode votar no candidato Y. É isso que pode acontecer. Foi isso que aconteceu com os baianos, com os cariocas, com os paraenses.
O segundo turno é mais previsível. São apenas dois candidatos. E, aí, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ou vota no X ou então vota no Y. Não há mais de uma opção de candidatos. Na outra margem, pode-se votar em branco ou anular o voto. É o que muitos acabam fazendo.
Aí, nesse contexto, as pesquisas podem ser mais reais, se é que podem ser consideradas assim.
Candidato que espera por pesquisas e nelas confia pode sofrer no final do pleito, pois começa a acontecer aquela brincadeira de esconde-esconde – o eleitor esconde em quem votar e os pesquisadores fingem que entrevistaram um universo X de pessoas.
E, assim, caminhamos vendo as pesquisas levarem a sua goleada, bem maior do que os 7 a 1 tomados pela seleção de Felipão.

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